
Na 6ª FLIP, ano passado, o diretor de programação, Flávio Moura, contava com uma festa onde o diálogo entre livros e outras artes matizasse as mesas e debates. Por conta disso, Neil Gaiman teve de passar umas longas horas dando autógrafos e Lucrecia Martel, quase imperceptível em meio às figuras excêntricas que caminham pelas vielas de paralelepípedos, caiu de pára-quedas ao dividir uma mesa com o gaúcho João Giberto Noll [de fala mais incompreensível que o próprio
acento argentino], sem muito resultado.
Na mesma época, nossa crítica inveterada, Natalia Barrenha, desenvolvia seu projeto de Mestrado, uma análise do som na obra da cineasta, os filmes O Pântano [2001], A Menina Santa [2004] e La mujer sin cabeza [2008]. Este seria apresentado exclusivamente para a Flip, numa pré-estreia digna da Providência – até então, o filme só havia sido exibido na competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes -, já que até hoje ele não configurou entre os cartazes.
A coletiva com a cineasta abriria a longa fila de autores na berlinda na Pousada do Ouro. Lá, estavam Lucrecia e Natalia, uma mais tímida que a outra, num silêncio quase sepulcral, em meio aos figurões do jornalismo brasileiro que nada tinham a perguntar àquela argentina miúda de óculos engraçado. Prato cheio para que Natalia enfrentasse a vergonha, caprichasse no espanhol e roubasse a cena - o que lhe rendeu elogios posteriores da própria Lucrecia e um agradecimento caloroso da assessoria da FLIP.
Afinal, havia transformado a coletiva em exclusiva.
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