Coisa de criança...

 

por Felipe Teram onde_vivem_os_monstros_III

 

Existe uma barreira bem delimitada que separa o que podemos chamar de filmes de guerra e filmes sobre a guerra. Não trata-se de algo tão abstrato quanto prático: basta observar as reações de um espectador que acaba de assistir a Resgaste do Soldado Ryan (1998) e um outro que aguenta assistir a Fahrenheit 11/09 até o fim. No primeiro filme, provavelmente, o espectador será abalado pelas vibrações imagéticas que transportarão suas pulsações sensoriais ao temente mundo das belicosas batalhas yankees. No segundo filme, certamente o espectador manterá certa distância do assunto por mais que o tom reflexivo faça-o ponderar de forma mais apurada sobre o tema da “luta contra o terror” – e no máximo, o espectador manterá um rancor indignado.

Essa diferenciação, ou pelo menos sua lógica, pode fornecer uma astuta reserva às promessas da divulgação de Onde Vivem os Monstros, inspirado no romance de Maurice Sendak e dirigido por Spike Jonze.

A mídia dizia: “Jonze vai dirigir um filme infantil!”. E logo as especulações tomaram proporções que podem encobrir as matizes que dão forma à mais nova obra do diretor de Maryland. As avaliações sobre o Jonze oscilam entre a crítica, mas uma coisa é facilmente reconhecível em seu trabalho: as experimentações estarão lá. Desde os métodos de direção – que incluem criativas posições de câmeras com maneirismos publicitários – até os motes que justificam suas filmagens – como na estranha proposta do clipe Praise You, do Fatboy Slim, em que o próprio diretor lidera uma coreografia acompanhado de um grupo de dançarinos de meia idade, todos dançando de forma cafona em frente a uma fila de cinema – Jonze é considerado por muitos um legítimo wird.

E as fantasias de Max (interpretado pelo ator mirim vestido em fantasia de lobo Max Records) não são nada típicas para um olhar estranho à tendência do diretor. Max vive com a irmã mais velha e a mãe. A primeira já está crescida de mais para acompanhá-lo em suas brincadeiras e fantasias, enquanto a mãe, viúva que trabalha arduamente para pagar as contas, está agora namorando em seu tempo livre. Se para o leitor essa descrição pode parecer apenas um ordinário script da família contemporânea, provavelmente para uma criança que ambienta seu amadurecimento dentro dessa situação, tudo pode parecer um thriller, no qual o controle emocional mostra-se como um risco eminente.

Como lidar com isso? Max vê-se em um universo de monstros gigantescos, que estranhamente lhe nomeiam rei, e ele passa a se relacionar com eles, propondo uma grande empreitada: a construção de uma fortaleza para a proteção de todos.

Em se tratando de circunstâncias de grande reverberação subjetiva, Jonze pôde instrumentalizar o seu estilo para protrair essa difícil fase da infância. Nas cenas de brincadeiras – como na guerra de neve, ou quando Max persegue o cachorro – o diretor abusa da câmera solta e estremecida, muito presente em seus filmes Video Days (1991) e Amarillo by Morning (1997). A voz dos monstros (que são emitidas por atores como Paul Dano, Chris Cooper e James Gandolfini) exigiu, seguindo a tendência do diretor, um método bastante específico: as dublagens foram capturadas com os atores atuando e recriando os mesmos movimentos dos monstros, numa tentativa de empregar profundidade interpretativa às suas falas. Funcionou. Fica claro que não é apenas Max que experimenta suas emoções de alta voltagem, mas também os monstros, como produtos de sua fantasia, demonstram as dificuldades em se relacionar com o mundo.

Para dar realismo à atuação de Max, principalmente em cenas nas quais o garoto se assustava ou tinha de parecer sobressaltado, Jonze desenvolveu uma rotina de brincadeiras para tirar do garoto as reações mais honestas possíveis. O diretor contratou atores caracterizados de figuras assustadoras e artistas circenses que tinham a função de impressionar o jovem ator durante o processo de atuação. Comedor de espadas, caras de zumbis e maquiagens de dedos sangrando foram alguns dos figurinos que tornavam a brincadeira de atuar mais emocionante.

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No começo de 2010, o IG traduziu para o português uma ótima reportagem do New York Times sobre as dificuldades de Jonze – e da Warner – em obterem um último corte para Onde Vivem os Monstros. Tratava-se de obstáculos mercadológicos que pairavam sobre a classificação do filme, o que seria dele, afinal, em uma prateleira sinalizada por gêneros. Ao contrário das expectativas da mídia, não era m filme infantil, um Shrek com indumentárias de monstros do ingênuo História Sem Fim.

Como o próprio diretor reforça, não é um filme infantil e sim um filme sobre a infância. E apesar da comparação que introduz esse texto, no qual um filme sobre tende a criar uma distância do tema, pode-se dizer que Jonze tenha conseguido equilibrar a balança que envolve a abordagem pueril de um tema entrelaçado ao objeto infância. Não que as crianças gostem mais de Onde Vivem os Monstros do que de qualquer animação da Pixar. Mas será difícil um adulto, no alto de seus anos, não lembrar-se de seus momentos difíceis de quando tinha 8 ou 9 anos. Um grande mérito quando nossa cultura nos obriga a enxergar a infância num nível de perfeição e inocência ideais.

Onde Vivem os Monstros nos lembra que a infância, antes de uma fase da vida, é um estado de espírito – humano.

Clique na imagem abaixo e assista ao trailer

Onde Vivem os Monstros, Spike Jonze, 2010

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