Vintage Pop Fellini

 

por Felipe Teram

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O clássico vocativo de ensaios de dança “Five, six, seven, eight” irrompe as primeiras cenas de Chicago (2002), filme musical dirigido por Rob Marshall. Nada mal para um tradicional coreógrafo de sucesso que incursa com o respeito de um detentor de 6 Oscars para o mundo dos diretores de grandes produções. Após um hiato de Memórias de uma Gueixa (2005), em que o diretor tomou a frente de uma adaptação de um livro, o diretor retoma sua sina de coreógrafo e dirige Nine, mais um faustoso musical.

Nine esteve nos teatros da Broadway antes de perpetuar sua grandiosidade no cinema. Em 1982, a montagem dirigida por Tommy Tune e coreografado por Thommie Walsh estreou no 46th Street Theater, em que foram realizadas 729 apresentações. A recepção da crítica foi das melhores: os cinco Tony Awards (a maior premiação do teatro norte-americano) foram responsáveis por impulsionar a carreira de seus atores e possibilitar a apresentação da peça em Londres, Buenos Aires e Tokyo.

Até que a história semi-autobiográfica de Fellini içou as projeções cinematográficas. Ao contrário do que o título poderia sugerir, Nine não é uma continuação do clássico 8 e ½, mas sim, sua extensão no universo dos palcos. A narrativa apresenta a história de um diretor italiano de cinema chamado Guido Contini – um dia interpretado por Raul Julia nos palcos, e agora interpretado por Daniel Day-Lewis – que encontra-se em uma crise dupla: beira a meia idade ao mesmo tempo que passa por um recesso de criatividade. Um desespero existencial masculino e a pressão de produtores que esperam um grande filme. Um problema clássico e outro com a falta de um. Em meio a coação emocional, o diretor defronta-se com seus conflitos afetivos – todos relacionados às mulheres de sua vida.

Se nas montagens teatrais o luxo e a superprodução prometiam um espetáculo que só a Broadway consegue proporcionar, Hollywood parece ter apostado o que tem de mais valioso em seu capital de sonhos: estrelas e mais estrelas. Judi Dench (um típico “clássico”), Nicole Kidman (discreta), Marion Cotillard (suficiente), Penélope Cruz (em mais uma prova de que é a grande estrela europeia de nosso tempo), Sophia Loren (com uma dermatológica falta de expressão), Kate Hudson (algo pueril) e Fergie. Todos já indicados ao Oscar senão ganhadores de um, com exceção da Fergie, que conseguiu um Grammy e dificilmente poderia se esperar um desempenho que se assemelhe aos seus companheiros de cena.

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Sobre este recorte narrativo do filme de Fellini, Nine se desenvolve cheio de canções, coreografias e efeitos de luzes. A comparação entre os dois filmes se faz instante quando a fluidez demarca suas diferenciações básicas. Como na maioria dos musicais, os acontecimentos são transformados em números coreografados, os sentimentos em falas trauteadas e o esmero no movimento das câmeras, em danças sincrônicas.

Os esforços da direção de Rob Marshall parecem seguir a mesma fórmula de Chicago: projetar a magia da Broadway em uma experiência fílmica que tente remediar a ausência do clima teatral – tentando manter-se fiel ao exercício narrativo. Elementos como um figurante-espectador que assiste aos números musicais ou mesmo o “desleixo” de mostrar poltronas e paredes de um teatro, conseguem, na medida de seus limites, sintonizar o espectador à excitação prima de estar ao vivo. O movimento dos atores quando estão na “realidade”, intercalam-se às coreografias, num jogo de edição que tenta explicar como os fatos reais são transformados em música - algo possível apenas em um musical. Não chega a ser motivo de orgulho para Fellini, mas a Broadway deve estar animada.


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