Desespero Lírico

a_fita_branca_posterpor Cesare Rodrigues

 

Diziam de Bergman que conseguia da especificidade dos conflitos e das angústias de suas personagens fazer uma análise do homem geral e da alma humana. Podemos dizer o mesmo de Michael Haneke se o elemento em investigação configura-se na crueldade deste homem. “Tento fazer filmes anti-psicológicos, com personagens que seriam menos personagens que projeção de superfícies para o espectador”, disse o diretor austríaco ainda em início de carreira [1993], em entrevista a Wolf Donner. Personagens que seriam meios para o espectador encontrar a própria crueldade. Encontrar em si as raízes da violência.

Cineasta controverso, de filmes chocantes e agressivos, que busca via provocação e diálogo causar questionamento e não complacência e consenso no espectador, o austríaco desenvolve há mais de duas décadas entre França, Alemanha, Estados Unidos e sua Áustria um cinema de crueldade e silêncios, em que as especificidades são tão gritantes que aproximam-se de alegorias. Ou vice-versa. E é inegável que salte imediatamente aos olhos de qualquer um que esteja exposto à sua obra, dos suicídios de O Sétimo Continente ao de Caché, sua intensa relação com a violência, seu tema favorito. Mas não a plastização que torna a violência aceitável de diretores estadunidenses como Oliver Stone ou Quentin Tarantino e seguidores, segundo a crítica do próprio Haneke, mas uma abordagem da violência como o pior do ser humano.

Porém, é recorrente entre a crítica considerar que Haneke fala da violência sem necessariamente mostrá-la. Com exceção de Funny Games [1997], cujo título em português, Violência Gratuita, esclarece muito sobre o exagero sádico que se desenrola na película, a violência é sempre a tônica condutora, mas pouco espaço ocupa nas cenas, ficando normalmente relegada a poucos momentos de acentuada intensidade ou permanecendo irrealizada, escondida no entre-cenas, como em seu último lançamento, A Fita Branca [2009], vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, do Globo de Ouro de filme estrangeiro e favorito ao mesmo prêmio no Oscar.

Filmado em alemão, com atores pouco conhecidos e fotografia em preto e branco, cuja estética remete a alguns trabalhos do fotógrafo August Sander [que na época retratada pelo filme já arriscava seus clics], A Fita Branca é um filme em que as duras relações entre as personagens é que conduz a narrativa. Esta utiliza-se de poucos recursos, valendo-se de narrador em primeira pessoa e planos e enquadramentos óbvios. Se podemos chamar de suspense o narrado é por nossa certeza do culpado parecer mais nebulosa conforme a narrativa avança e mesmo a nossa angústia enquanto espectador passivo aproxima-se da absolvição diante da rudeza com que as gerações se conflitam.

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fotografia de August Sander

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cena de A Fita Branca

A fita branca que dá nome ao filme é um adorno que simbolizaria a inocência e a pureza. É com ela que o Pastor [naquele microcosmo as personagens são a sua condição social, representam nada mais que sua função] tenta resgatar esses valores em seus filhos maiores quando percebe que os meninos começam a desviar-se deles. Valores que vão se mostrando cena a cena mais distantes das pessoas no vilarejo norte-alemão, onde os fatos se desenrolam às vésperas da I Guerra Mundial, cujo explodir repentino altera o destino de muitas das personagens.

É nesse contexto de relações sociais intensificadas [especialmente por serem elas que definem as relações entre as personagens], que estranhos atentados trazem a tona o medo e a desconfiança. Iniciando-se com a destruição criminosa da safra do Barão e uma armadilha pueril que fere gravemente o Médico, mas intensificando-se com a tortura de crianças do vilarejo, tais atos, narrados pela voz romântica e hesitante do Professor, parecem ter mais relevância para aquele momento histórico que a guerra que explode. Tanta importância quanto a paixão do Professor pela jovem babá dos filhos do Barão ou quanto a rude educação representada teria na formação das crianças [uma formação de crueldade, tradição e nacionalismo em que poderia ser observada talvez uma gênese do nazismo, já que aquelas crianças seriam os adultos do 3º Reich].

Sobram idiossincrasias e abusos de poder por parte dos adultos. Sobram tristeza, crueldade e lirismo a cada cena de A Fita Branca, especialmente evidenciados na fotografia em preto e branco e na singeleza angustiante da narrativa.

Clique na imagem abaixo e assista ao trailer

A Fita Branca, Michael Haneke, 2009

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A Fita Branca [Das Weisse Band]
Áustria/Alemanha/França/Itália, 2009, 144min
Direção e Roteiro: Michael Haneke
Produção: Stefan Arndt, Veit Heiduschka e Michael Katz
Fotografia: Christian Berger
Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Fion Mutert, Michael Kranz, Burghart Klaußner, Steffi Kühnert, Maria-Victoria Dragus, Leonard Proxauf, Levin Henning, Johanna Busse, Thibault Sérié, Josef Bierbichler, Gabriela Maria Schmeide, Janina Fautz, Enno Trebs, Theo Trebs, Rainer Bock, Roxane Duran, Susanne Lothar, Eddy Grahl, Branko Samarovski, Birgit Minichmayr, Aaron Denkel, Detlev Buck e Carmen-Maja Antoni.