A Fita Branca, Michael Haneke, 2009
Desespero Lírico
por Cesare Rodrigues
Diziam de Bergman que conseguia da especificidade dos conflitos e das angústias de suas personagens fazer uma análise do homem geral e da alma humana. Podemos dizer o mesmo de Michael Haneke se o elemento em investigação configura-se na crueldade deste homem. “Tento fazer filmes anti-psicológicos, com personagens que seriam menos personagens que projeção de superfícies para o espectador”, disse o diretor austríaco ainda em início de carreira [1993], em entrevista a Wolf Donner. Personagens que seriam meios para o espectador encontrar a própria crueldade. Encontrar em si as raízes da violência.
Cineasta controverso, de filmes chocantes e agressivos, que busca via provocação e diálogo causar questionamento e não complacência e consenso no espectador, o austríaco desenvolve há mais de duas décadas entre França, Alemanha, Estados Unidos e sua Áustria um cinema de crueldade e silêncios, em que as especificidades são tão gritantes que aproximam-se de alegorias. Ou vice-versa. E é inegável que salte imediatamente aos olhos de qualquer um que esteja exposto à sua obra, dos suicídios de O Sétimo Continente ao de Caché, sua intensa relação com a violência, seu tema favorito. Mas não a plastização que torna a violência aceitável de diretores estadunidenses como Oliver Stone ou Quentin Tarantino e seguidores, segundo a crítica do próprio Haneke, mas uma abordagem da violência como o pior do ser humano.
Porém, é recorrente entre a crítica considerar que Haneke fala da violência sem necessariamente mostrá-la. Com exceção de Funny Games [1997], cujo título em português, Violência Gratuita, esclarece muito sobre o exagero sádico que se desenrola na película, a violência é sempre a tônica condutora, mas pouco espaço ocupa nas cenas, ficando normalmente relegada a poucos momentos de acentuada intensidade ou permanecendo irrealizada, escondida no entre-cenas, como em seu último lançamento, A Fita Branca [2009], vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, do Globo de Ouro de filme estrangeiro e favorito ao mesmo prêmio no Oscar.
Filmado em alemão, com atores pouco conhecidos e fotografia em preto e branco, cuja estética remete a alguns trabalhos do fotógrafo August Sander [que na época retratada pelo filme já arriscava seus clics], A Fita Branca é um filme em que as duras relações entre as personagens é que conduz a narrativa. Esta utiliza-se de poucos recursos, valendo-se de narrador em primeira pessoa e planos e enquadramentos óbvios. Se podemos chamar de suspense o narrado é por nossa certeza do culpado parecer mais nebulosa conforme a narrativa avança e mesmo a nossa angústia enquanto espectador passivo aproxima-se da absolvição diante da rudeza com que as gerações se conflitam.

fotografia de August Sander

cena de A Fita Branca
A fita branca que dá nome ao filme é um adorno que simbolizaria a inocência e a pureza. É com ela que o Pastor [naquele microcosmo as personagens são a sua condição social, representam nada mais que sua função] tenta resgatar esses valores em seus filhos maiores quando percebe que os meninos começam a desviar-se deles. Valores que vão se mostrando cena a cena mais distantes das pessoas no vilarejo norte-alemão, onde os fatos se desenrolam às vésperas da I Guerra Mundial, cujo explodir repentino altera o destino de muitas das personagens.
É nesse contexto de relações sociais intensificadas [especialmente por serem elas que definem as relações entre as personagens], que estranhos atentados trazem a tona o medo e a desconfiança. Iniciando-se com a destruição criminosa da safra do Barão e uma armadilha pueril que fere gravemente o Médico, mas intensificando-se com a tortura de crianças do vilarejo, tais atos, narrados pela voz romântica e hesitante do Professor, parecem ter mais relevância para aquele momento histórico que a guerra que explode. Tanta importância quanto a paixão do Professor pela jovem babá dos filhos do Barão ou quanto a rude educação representada teria na formação das crianças [uma formação de crueldade, tradição e nacionalismo em que poderia ser observada talvez uma gênese do nazismo, já que aquelas crianças seriam os adultos do 3º Reich].
Sobram idiossincrasias e abusos de poder por parte dos adultos. Sobram tristeza, crueldade e lirismo a cada cena de A Fita Branca, especialmente evidenciados na fotografia em preto e branco e na singeleza angustiante da narrativa.
................................
